A
cidade de Embu, localizada a 30 minutos de São Paulo tem suas origens na antiga aldeia M'Boy, criada pelos padres
da Companhia de Jesus na primeira metade do século XVII. M'Boy,
Boy, Bohi, Bohu, Emboi, Alboy, Embohu.
Diversas
grafias foram registradas por Sérgio Buarque de Holanda para a
palavra indígena que nomeava a extensa região onde surgiu
a aldeia. Diz a lenda que o nome M'Boy - cobra em tupi-guarani - foi dado
para homenagear um índio que salvara da morte o padre Belchior
de Pontes, figura fundamental na história da aldeia. Pouco depois,
o índio morreu picado e envolvido por uma grande serpente. Segundo
Leonardo Arroyo, o termo M'Boy vem de Mbeîu, que significa cousa
penhascosa, agrupamento de montes, coisa em cachos ou cacheados.
De
qualquer modo, era nessas terras montanhosas, que ficava a fazenda de
Fernão Dias Pais - tio do famoso bandeirante caçador de
esmeraldas - e Catarina Camacho, sua mulher. Em 24 de janeiro de 1624,
o casal doou a propriedade aos jesuítas, incluindo os muitos índios
que aldeara em torno da sede. Duas condições foram impostas
por Catarina Camacho para efetivar a doação: o culto ao
Santo Crucifixo e a festa de Nossa Senhora do Rosário, a quem a
pequena capela da fazenda era dedicada.
A
doação era bem conveniente aos jesuítas, que, atacados
por índios na aldeia de Maniçoba, próxima de Piratininga
(vila que deu origem à cidade de São Paulo), procuravam
um lugar mais seguro para prosseguir com sua missão de catequizar
o gentio. A nova aldeia, além de estar mais afastada do núcleo
de Piratininga, ficava na confluência dos caminhos que levavam ao
mar e ao sertão, um ponto estratégico.
Uma vez instalados, os padres iniciaram o trabalho de catequese dentro
dos moldes de outros aldeamentos jesuíticos. O princípio
básico era fixar os índios em torno das igrejas e colégios,
protegendo-os da escravidão. Em troca, o gentio tinha que se submeter
à nova disciplina que, na maior parte das vezes, entrava em choque
direto com a cultura indígena. Além de se adequar à
moral religiosa católica, que permitia um único casamento,
os índios transformavam-se em agricultores sedentários.
Talvez
por problemas de adaptação dos indígenas ao novo
modo de vida, no fim do século XVII e início do XVIII, o
padre Belchior de Pontes, então diretor da aldeia, resolve mudá-la
para outro lugar não muito distante. Segundo relata o padre Manuel
Fonseca no livro 'A Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes',
a nova aldeia ficava assentada num plano cercado de riachos que produziam
peixes miúdos em tal quantidade, que podiam ajudar muito a sustentação
dos índios. No novo local, o padre Belchior de Pontes ergueu também
uma nova igreja, maior que a anterior, conservando a invocação
a Nossa Senhora do Rosário.
Em meados do século XVIII, a aldeia contava com 261 índios
e apresentava sinais de prosperidade, destacando-se entre as demais. Já
havia sido construída a residência dos jesuítas, com
ajuda dos índios. Além da mandioca, trigo e legumes, produzia-se
algodão, que era fiado e tecido ali mesmo pelas índias.
Há registros de exportações para Rio de Janeiro e
Bahia em 1757. Uma outra peculiaridade da aldeia era a existência
de uma banda de música, bastante respeitada na região. Composta
de índios guaranis, que dedicavam duas horas da manhã e
duas horas da tarde aos ensaios, a corporação musical participava
de missas e procissões, se apresentando em localidades próximas.
Em
1760, os jesuítas foram expulsos do Brasil por ordem do Marquês
de Pombal e a igreja do Embu passou para os cuidados do clero diocesano.
A população indígena começou a se dispersar
e, em 1873, restavam apenas 75 índios e mestiços habitando
o lugar.
Desde
o início do século XIX, a aldeia já estava em franca
decadência. Permaneceu na obscuridade até nos anos 20 deste
século, quando Duarte Leopoldo e Silva determinou a primeira recuperação
da igreja. Em 1939 e 1940, o conjunto jesuítico - que compreende
a Igreja Nossa Senhora do Rosário e a residência dos jesuítas
- foi considerado Patrimônio Nacional e restaurado pelo SPHAN (atual
IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional).